Exposição à capital paulista A Divina Comédia pelo olhar de Salvador Dalí

Daniel Mello
Repórter da Agência Brasil

São Paulo – Com 100 gravuras, a exposição Dalí: A Divina Comédia apresenta o encontro do pintor surrealista espanhol com a obra do poeta italiano Dante Alighieri. A mostra, aberta hoje (31) na Caixa Cultural, no centro paulistano, traz as gravuras que Salvador Dalí fez na década de 60 do século passado para ilustrar uma edição comemorativa da obra A Divina Comédia, lembrando os 700 anos de nascimento de  Dante Alighieri. As obras chegaram a São Paulo depois de passar pelo Rio de Janeiro, por Curitiba e pelo Recife.

O trabalho começou como uma encomenda do governo italiano. No entanto, mesmo após a desistência do pedido, o artista continuou elaborando as ilustrações. “Ele ficou cativado pela figura de Dante e pela importância que tem A Divina Comédia no contexto da cultura ocidental. E se sentiu também desafiado pela possibilidade de poder ilustrar a obra, assim como tantos outros artistas anteriores a ele tinham tentado”, diz a curadora da exposição, Ana Rodrigues.

Cada uma das gravuras corresponde a um dos 100 cantos da obra, respeitando a divisão original: Paraíso,Purgatório e Inferno. No poema, Dante desce ao submundo para resgatar sua amada Beatriz, sendo guiado pelo poeta Virgílio. A curadora Ana Rodrigues destaca que os três tempos da obra ilustrados por Dalí refletem momentos diferentes da carreira do pintor. “A parte do inferno é a que tem mais referências a todo o mundo onírico, ao universo surrealista de Dalí. É o espaço onde ele coloca todos os medos, os pesadelos, as angústias do ser humano.”

A primeira imagem do purgatório foi escolhida como símbolo da exposição. Nela, um anjo olha para gavetas que se abrem em seu corpo. “Explorando o seu interior, o mundo subconsciente ao qual Dalí tanto se refere”, explica Ana. A figura é um bom exemplo de como o pintor espanhol pensou a dimensão intermediária entre o paraíso e o inferno. “Como espaço de transição, ele vai colocar [no purgatório] as dúvidas do homem, vários elementos simbólicos que vão identificar sua iconografia, as muletas, as cabeças, os corpos moles”, detalha a curadora.

Nas 33 gravuras que compõem o canto Paraíso, é possível encontrar traços da fase mística de Dalí. “Temos imagens mais calmas, serenas, equilibradas e que remetem também a uma fase importante do trabalho de Dalí, na qual ele se refugia no misticismo e nas imagens religiosas para expressar o seu estado de espírito”.

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