Médicos viraram o principal produto de exportação de Cuba

O maior parceiro do governo cubano tem sido a Venezuela, que recebe 44.804 profissionais da área de saúde vindos da ilha (Andrew Alvarez/AFP)
O maior parceiro do governo cubano tem sido a Venezuela, que recebe 44.804 profissionais da área de saúde vindos da ilha
A formação rápida de um grande número de médicos e seu envio ao exterior por meio de parcerias com outros países se tornou o maior produto de exportação de Cuba. Segundo uma reportagem publicada pelo jornal espanhol El País em maio, os profissionais de medicina são para a economia da ilha o mesmo que o petróleo é para a Venezuela: a matéria-prima de exportação que financia a maior parte de seu orçamento e sustenta sua política externa.

A recente parceria com o Brasil seria uma tentativa de diversificar o seu mercado, que esteve, nos últimos anos, focado na Venezuela.

Segundo o jornal, o envio de médicos a outras nações é uma prática do regime cubano — nos últimos 50 anos o governo local já trocou ajuda médica por empréstimos e acordos comerciais com 107 países de todo o mundo. O que começou como um princípio idealista do governo revolucionário — saúde como direito básico da população — se tornou um objetivo econômico e pragmático.

Na última década, foi a parceria com a Venezuela que ajudou a sustentar a economia cubana. Em fevereiro de 2012, havia 44.804 profissionais cubanos da área de saúde no país, entre eles médicos, enfermeiros e terapeutas. Em troca desse serviço, Caracas enviava 105.000 barris de petróleo por dia à ilha.

Leia também:

O governo Chávez também foi importante por ter ajudado na expansão dessas missões médicas cubanas por outros países da América do Sul, como Bolívia, Argentina, Nicarágua, Equador, Haiti, Guatemala, Peru, Honduras, Paraguai, e Uruguai. O El País calcula que, na época da reportagem, 42.000 médicos cubanos trabalhavam fora do país, com as universidades cubanas sendo capazes de formar 5.000 novos profissionais todos os anos para esse tipo de missão.

O jornal compara a dependência atual de Cuba em relação à Venezuela com a dependência que o país tinha em relação à União Soviética durante a Guerra Fria. A morte de Chávez e uma decorrente crise política e econômica venezuelana poderiam representar para a ilha o mesmo que o colapso do socialismo em 1991: caos econômico. A saída encontrada pelo governo local foi, justamente, diversificar seus clientes. Os 4.000 médicos que serão enviados ao país fariam parte dessa estratégia.

Deserção — O jornal El País ainda entrevistou o médico cubano Julio César Alfonzo, formado em 1992 na Universidade de Havana e diretor atual da Organização Solidariedade Sem Fronteiras, grupo com sede em Miami que pretende dar apoio econômico e logístico aos cubanos que quiserem desertar durante missões médicas internacionais.

“Eles estão formando médicos em tempo recorde para suprir as necessidades de exportação e isso tem sido feito em detrimento da qualidade de formação dos médicos e da medicina de Cuba, que costumava ser de primeira. Isso está ocorrendo desde que começou a parceria com a Venezuela entre 2003 e 2004”, disse o médico.

Segundo Alfonzo, nos últimos anos 5.000 profissionais da saúde cubanos desertaram durante missões internacionais, a maioria fugindo para o sul da Flórida — justamente a região onde fica Miami. A cada semana, sua organização recebe entre sete ou oito telefonemas de médicos que querem fazer o mesmo. “Pelo menos 95% deles nos ligam da Venezuela. Lá eles vivem em condições muito ruins, são enviados aos piores lugares, onde estão todos os delinquentes, sem nenhuma garantia para sua vida”, afirmou Alfonzo ao El País. (Veja)

Notícias Relacionadas

2 Comentários

  1. Fedegoso

    Gostaria de saber quanto tempo dura um curso de medicina em Cuba. Soube que são seis anos. E gostaria de saber sobre a qualidade do curso. Dizem que Cuba tem uma medicina muito avançada. E em Portugal, na Espanha? As perguntas são as mesmas. Não será o caso aqui de reserva de mercado, ou seja, os médicos daqui tratarem a assistência médica como um mercado qualquer? Puro preconceito não é mesmo?

    Eu nunca tinha visto uma briga tão interessante como esta, está expondo até as vísceras de parte de nossa elite. Estou aprendendo pacas! Os argumentos da nossa classe médica são risíveis na resistência aos médicos estrangeiros.

    1. Adriano

      O que mais preocupa é a falta de transparência neste processo. A sociedade foi confrontada com um fato consumado, engendrado e posto em marcha pelo governo à revelia das instituições próprias (escolares, trabalhistas, profissionais etc) e da população em geral, que foram apanhadas de surpresa. A reação está sendo tomadas de posição extremadas, pró ou contra, o que está gerando conflitos indesejáveis de brasileiros contra brasileiros e que bem poderiam e deveriam ser evitados.

      Há muita coisa mal esclarecida quer quanto futuro dos brasileiros que aproveitaram uma oportunidade de regressarem ao seu país em condições particulares precárias, quer relativamente aos cubanos que vêm sob forma de trabalho escravo, sem direito ao salário dos demais estrangeiros nas mesmas condições e impedidos de se integrarem no meio em que vêm trabalhar, vez que sujeitos à vigilância cerrada de mercenários, a soldo do governo da ilha.

      Além disso, seria interessante que o contrato coletivo de trabalho fosse divulgado, pois há pormenores, como jornada de trabalho, férias, horas-extra, assistência social etc.

      Pelo que vem sendo divulgado, apesar de Lula ter afirmado que o nosso sistema é um dos melhores do mundo, as carências do Brasil nessa área são enormes, mas as responsabilidades não podem ser assacadas a uma classe mas às políticas erraadas dos governantes ao longo e muitas décadas.
      Acho tudo isto surreal e inacreditável.

Comentários estão suspensos