Berlusconi ameaça desestabilizar governo italiano caso seja cassado

AGÊNCIA ANSA

Roma – O ex-primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi deu a entender nesta quinta-feira (22) que uma possível cassação de seu mandato no Senado pode colocar em risco a sustentação do governo de Enrico Letta. “Se dois amigos estão em um barco e um deles joga o outro no mar, de quem é a culpa do barco virar?”, disse Berlusconi em uma entrevista para a revista italiana “Tempi”.

Na entrevista exclusiva, o ex-premier falou sobre a possível cassação de seu mandato. No início do mês, a Suprema Corte italiana confirmou uma condenação de quatro anos de prisão a Berlusconi no processo conhecido como “Mediaset” e no qual foi acusado de fraude fiscal.

Referindo-se à aplicação das penas e à possível perda de mandato, Berlusconi disse que “a Constituição e o bom senso oferecem muitas estradas” para a solução do caso. O ex-premier também afirmou que “está em jogo muito mais que o destino de uma pessoa”. “Se fosse só isso, seria um problema apenas para mim. Mas estamos no epílogo de uma guerra de 20 anos travada pelos juízes de esquerda contra mim, considerado um obstáculo a eliminar para a esquerda garantir a tomada definitiva do poder”, defendeu-se o ex-premier italiano, classificando a sentença de “sem fundamento, injusta e até inacreditável”.

“Eles podem fazer tudo, mas não podem me tirar três coisas: o direito de falar no cenário público e civil italiano, o direito de animar e guiar o movimento político que eu fundei, o direito de ainda ser o ponto de referência para milhões de italianos, até que esses cidadãos livremente continuarão querendo isso”, salientou o ex-premier.

Berlusconi também alertou sobre a necessidade do governo tomar medidas rapidamente para evitar que a Itália continue em uma recessão econômica. “Ou, nos próximos 50 dias, o governo consiga dar um choque positivo que possa ser percebido por todos os italianos, ou continuaremos presos a uma tendência recessiva. E não podemos exultar por um ‘zero vírgula’ a mais no crescimento econômico. Ou a Itália volta a correr, ou estamos arriscando a pagar um preço muito elevado pela a crise”, concluiu.

Sobre as especulações de que sua filha Marina assumiria seu posto na política italiana, Berlusconi negou. “Minha filha Marina foi uma verdadeira leoa nas suas declarações públicas nos últimos meses. Os seus valores como pessoa, empreendedora, mulher e cidadã estão sob os olhos de todos. Eu dei alguns conselhos a ela, com amor, e estou absolutamente seguro de que ela não me substituirá”, afirmou.

Nesta quinta-feira, Letta informou o presidente italiano, Giorgio Napolitano, da conversa que teve ontem com o secretário do partido de Berlusconi, o Povo da Liberdade (PDL), Angelino Alfano. O líder do PDL chegou a pedir que o Partido Democrático (PD) votasse contra a cassação do ex-premier.

As declarações de Berlusconi repercutiram na política italiana. O ministro para as Relações com o Parlamento, Dario Franceschini, disse que “a legalidade não é moeda de troca”. “Basta responder às ameaças e ultimatos com um princípio muito simples: a legalidade não é moeda de troca, nem o cumprimento das leis para a duração de um governo”.

A Associação Nacional de Magistrados (ANM) da Itália também rebateu as críticas de Berlusconi. “A ANM mais uma vez denuncia publicamente a sucessão de notícias e reportagens televisivas contendo graves ofensas a magistrados e ataques inaceitáveis a toda a ordem judiciária”, informou um comunicado. (Ansa Brasil)

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