Chega a 639 o número de ciclistas mortos em Brasília nos últimos 13 anos

Thais Leitão
Repórter da Agência Brasil

Brasília – “Podemos viver da saudade, mas não da dor. A gente ainda pode ensinar civilidade, contaminando as multidões”. A frase fez parte do discurso emocionado feito pela fundadora da organização não governamental (ONG) Rodas da Paz, Beth Veloso, ao encerrar o passeio ciclístico promovido hoje (18), com o objetivo de dar visibilidade à bicicleta como meio de transporte urbano e conscientizar a população por mais respeito no trânsito.

O evento comemorou o Dia Nacional do Ciclista, amanhã (19), e marcou os sete anos da morte do biólogo brasiliense Pedro Davison. Ele foi atropelado em 2006, aos 25 anos, enquanto andava de bicicleta no Eixão Sul, via expressa da capital federal, que é fechada ao tráfego de veículos aos domingos e se transforma em área de lazer. O biólogo estava na faixa central da via onde não é permitido o tráfego de carros. O passeio deste domingo, com dez quilômetros de trajeto pelo Eixão do Lazer, foi encerrado no local do acidente, onde há um memorial com o posicionamento de uma bicicleta branca.

Presente ao evento, a filha do ciclista, Luíza Davison, disse estar emocionada em ver aumentar o número de pessoas mobilizadas pela paz no trânsito. A menina completa 15 anos amanhã (19), mesmo dia em que ocorreu o acidente há sete anos. “Ver essas pessoas aqui, emocionadas com uma história que para mim é tão importante, e buscando a mesma coisa que a minha família busca desde aquele dia, é muito bom”, disse.

A mãe de Pedro Davison, Beth Davison, também destacou a mobilização crescente em torno do tema, mas lamentou que a demora no cumprimento da pena estabelecida ao motorista atropelador. Ele foi condenado em 2010 a seis anos de prisão em regime semiaberto e a pagar pensão à filha do ciclista. Por ser réu primário, recorre em liberdade.

“Hoje você vê mais bicicletas na rua, a discussão sobre ciclovias e ciclomobilidade está na pauta. O acidente foi uma sementinha plantada, já que o caso passou a ser um símbolo da paz no trânsito, símbolo de que a bicicleta é veículo e tem que ser respeitada e protegida pelo Estado. Mas, embora o motorista tenha sido condenado e tenhamos a certeza que um dia ele vai pagar, é muito triste ver que sete anos se passaram e nada aconteceu”, disse.

O presidente da Rodas da Paz, Jonas Bertucci, também enfatizou alguns avanços nos últimos anos, como a diminuição do número de ciclistas mortos no Distrito Federal. Ele também citou como pontos positivos o fato de a cultura da bicicleta como instrumento de mobilidade, e não apenas de lazer, estar mais presente na sociedade e de os políticos estarem mais atentos à ideia. Ele ressaltou, no entanto, que as políticas públicas direcionadas à área ainda são limitadas.

“Os projetos ainda são muito fracionados, como se fossem para criar ciclovias para os ciclistas e não para integrar a bicicleta à cidade. Não basta fazer ciclovias, é preciso haver campanhas educativas, fiscalização e estrutura adequada, como paraciclos [suporte físico onde a bicicleta é presa em um local público]. As ciclovias também precisam ter fluidez e levar o ciclista aonde ele quer ir, como ao seu local de trabalho ou de lazer”, disse ele, que usa a bicicleta diariamente para ir de casa, na Asa Norte, até o trabalho, no Setor Bancário Norte.

Jonas Bertucci destacou que entre os problemas mais comuns no trajeto pela L1, via da capital federal em que a velocidade máxima permitida é de 40 quilômetros por hora, está o fato de os motoristas passarem muito próximos à bicicleta e não darem preferência nos cruzamentos. “Faltam mais campanhas educativas para orientar motoristas, pedestres e ciclistas”, acrescentou.

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