Comissões da Verdade ouvem no Rio militares perseguidos na ditadura

Vinícius Lisboa
Repórter da Agência Brasil
Rio de Janeiro – As comissões Nacional e Estadual da Verdade do Rio de Janeiro ouviram hoje (12) dois militares que sofreram perseguição política e tortura na ditadura militar (1964-1985) por causa das preferências políticas ou discordâncias em relação a crimes cometidos pelo regime. Segundo o consultor da Comissão Nacional da Verdade Paulo, Ribeiro da Cunha, do Grupo de Trabalho Militares Perseguidos, os membros das Forças Armadas foram o grupo mais afetado.
“Um dos aspectos nefastos do pós-64 é associar todos os militares à ditadura, o que não é verdade. Muitos lutaram pela democracia. É um aspecto que precisa ser resgatado para as novas gerações, inclusive para as novas gerações de militares, para que tenham orgulho desses militares e os identifiquem como parte da construção do Estado democrático”, disse o pesquisador, que estima que cerca de 7,5 mil militares tenham sofrido algum tipo de perseguição nos primeiros anos depois do golpe.
O primeiro depoente da sessão pública de hoje foi o advogado José Bezerra da Silva, que serviu na Base Aérea do Galeão entre 1971 e 1979. Ele contou que, quando soldado, foi torturado por um tenente, um cabo e outro soldado, após ter dito que a tortura do militante da esquerda armada Stuart Edgard Angel tinha sido uma covardia – o jovem, de 26 anos, foi espancado e arrastado com a boca amarrada ao cano de descarga do jipe de um oficial. Bezerra disse que não sabia quem era Angel até vê-lo na enfermaria momentos depois que foi levado à base, já com o rosto marcado por agressões.
“Eu acabei cometendo a infelicidade de dizer ao cabo que aquilo era uma covardia, e perguntaram por que. E falei: três, quatro caras batendo em um só, um homem já preso e doente. Depois disso, me levaram para o interior da guarda e sofri uma sessão de tortura. Dias depois, fui internado com hemorragia na região do tórax e fui operado. O tenente foi lá me tirar da cama e me levar para me torturar de novo. Quando recebei alta, cheguei em casa doente, ferido, operado e, logo depois, recebi a obrigação de voltar à unidade, e o tenente me submeteu a vários esforços. Eu sentia o sangue descendo pela perna e não podia tomar uma atitude. Ia reclamar com quem, se o meu próprio chefe me torturava?”.
Com um mapa da Base Aérea do Galeão, Bezerra apontou os prédios para onde eram levados os prisioneiros. Segundo ele, soldados não podiam se aproximar nem da calçada desses locais, e tinham ordens para liberar, sem fazer perguntas, a entrada de dois veículos que eram usados para levar soldados ao interior da base, um opala cinza e outro bege. Carros de outras forças e da polícia também deixavam detidos, movimento que chegou a ser de três entradas por dia. “Os prisioneiros eram levados na mala, dentro de sacos, ou encapuzados. Não sabíamos se eram homens ou mulheres”.
Proibido de pedir baixa, ele contou que era vigiado na rua e impedido de obter promoções, porque havia ficado marcado como subversivo. Hoje, o advogado relatou que tinha seus armários frequentemente revistados, tinha que fazer a ronda sem munição e chegou a ter os pertences vasculhados em casa por um homem do serviço secreto, que enganou sua família disfarçando-se de amigo da faculdade. “Os militares foram as primeiras vítimas do golpe e dos tiranos. Em 1964, eles já sabiam quem era a favor e quem era contra, e fizeram uma vigilância constante. Muitos foram presos e assassinados”.
O segundo a depor, o soldado Belmiro Demétrio, foi expulso da Aeronáutica por se declarar brizolista. Depois de dizer aos militares em uma partida de futebol que admirava Leonel Brizola, que até então havia governado o Rio Grande do Sul, onde ele servia, na Base Aérea de Canoas, Demétrio chegou a ser preso e ameaçado de morte.

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