Museu Nacional sedia 8º Congresso Mundial de Estudos em Múmias

Paulo Virgilio
Repórter da Agência Brasil

 Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, recebe o 8º Congresso Mundial de Estudos em Múmias, de 6 a 9 de agosto. A múmia Aymara faz parte do acervo do museu (Fotos: Fernando Frazão/ABr)
Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, recebe o 8º Congresso Mundial de Estudos em Múmias, de 6 a 9 de agosto. A múmia Aymara faz parte do acervo do museu (Fotos: Fernando Frazão/ABr)

Rio de Janeiro – Detentor de um rico acervo de múmias preservadas por meios naturais e artificiais, o Museu Nacional, localizado na Quinta da Boa Vista, na zona norte do Rio de Janeiro, recebe na próxima semana, de terça-feira (6) a sexta-feira (9), mais de 100 especialistas de vários países para o 8º Congresso Mundial de Estudos em Múmias. A importância desse acervo do museu, vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), foi o que levou a instituição a ser escolhida para sediar o evento, pela primeira vez feito no Brasil.

As várias abordagens das técnicas de mumificação e da preservação de corpos e tecidos humanos constituem a temática do congresso, de acordo com a arqueóloga Cláudia Carvalho, diretora do Museu Nacional e à frente da organização do evento. “Nós buscamos reunir todas as diferentes áreas do universo de estudos sobre múmias, que é bastante amplo. Vamos ter várias questões relativas à preservação, ao uso de tecnologias de ponta, como tomografias e reconstituições em 3D, a estudos de saúde, de paleoparasitologia [ciência que tem como objetivo primário a identificação de organismos que, provavelmente, afetaram os ancestrais do homem] e de DNA”, explica.

Além de pesquisadores brasileiros, o congresso reunirá especialistas em múmias dos Estados Unidos, do Canadá, Reino Unido, da França, Itália, Dinamarca, do México, Peru, Chile, da Argentina,  do Egito e da China. O evento, que ocorre a cada dois anos, teve sua edição anterior em 2011 na cidade norte-americana de San Diego.

Nós buscamos reunir todas as diferentes áreas do universo de estudos sobre múmias, que é bastante amplo (Cláudia Carvalho, arqueóloga)

Ao longo da história, a preservação dos corpos sem vida sempre exerceu um fascínio especial sobre o ser humano, o que torna as múmias uma grande atração em todos os museus que dispõem desse tipo de acervo. A coleção do Museu Nacional, por exemplo, possui um dos nove exemplares do mundo de uma múmia egípcia do período de ocupação romana (30 a.C. – 642 d.C.), com os dedos da mão e os braços enfaixados separadamente.

O museu tem uma sala com raras múmias egípcias, como esta de um corpo feminino do período romano, feita com um processo raro que conserva com mais naturalidade os membros
O museu tem uma sala com raras múmias egípcias, como esta de um corpo feminino do período romano, feita com um processo raro que conserva com mais naturalidade os membros

O acervo inclui ainda a urna de uma cantora do Templo de Amon, em seu caixão original, fechado, alguns exemplares da América pré-colombiana, além de pequenos conjuntos de múmias brasileiras.

Com essa coleção, a maior da América Latina de múmias egípcias e uma das maiores do mundo em clima tropical, o Museu Nacional oferece a seus pesquisadores um rico material de estudo. Entre os trabalhos que a equipe do museu vai apresentar no congresso estão um estudo antropológico sobre a mumificação das cabeças de Lampião e de Maria Bonita e discussões sobre a prática da plastinação, método de preservação de tecidos humanos para fins didáticos.

Esses estudos refletem, segundo Cláudia Carvalho, a importância da mumificação dentro de um contexto contemporâneo. “É claro que temos uma grande quantidade de trabalhos voltados para os corpos mumificados tradicionais, como os do Egito e da região dos Andes, mas pretende-se também trazer um pouco de discussão sobre múmias mais recentes e sobre a questão da mumificação em si, que é a preservação de tecidos humanos que em condições normais não teriam sido conservados”, diz.

No acervo há este corpo de um menino, doação feita há mais de um século pelo governo chileno
No acervo há este corpo de um menino, doação feita há mais de um século pelo governo chileno

Memória – Além dos fins didáticos e científicos, a preservação dos corpos no mundo contemporâneo também pode estar ligada à memória. “Ao longo do século 20, nós tivemos vários exemplos de políticos que foram embalsamados, cujos corpos se preservam, para a visitação pública. Portanto, a questão da mumificação e da preservação do corpo humano perpassa vários momentos da história e chega aos dias de hoje sim”, diz a diretora do Museu Nacional.

Expostas durante décadas no Museu Nina Rodrigues, em Salvador (BA), as cabeças mumificadas de Lampião e Maria Bonita foram enterradas, em 1969, a pedido das famílias dos dois cangaceiros. O estudo que os pesquisadores do museu vão apresentar no congresso busca discutir essa questão, de um ponto de vista antropológico. “O objetivo é entender as perspectivas da época para situar a mumificação desse material e a polêmica da devolução das cabeças à família”, conta Cláudia Carvalho.

O 8º Congresso Mundial de Estudos em Múmias, feito pelo Museu Nacional/UFRJ, tem como correalizadores o Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo(MAE/Usp) e a Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, da Fundação Oswaldo Cruz (Ensp/Fiocruz).

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