Governo da Bahia tenta esconder fiasco da Arena Fonte Nova

LUÍS AUGUSTO GOMES

O anúncio de que a Arena Fonte Nova não mais será inaugurada festivamente no dia 29 de março porque é sexta-feira da Paixão e o evento poderia ser esvaziado é uma prova cabal de que o governo do Estado perdeu o senso do ridículo e não está agindo com a transparência que o caso requer.

O estádio não será inaugurado, obviamente, porque não está pronto, e também por isso foi transferido para Pituaçu o clássico Bahia x Vitória do campeonato baiano, marcado para o domingo de Páscoa e que certamente esgotaria a lotação.

Arena Fonte Nova
Arena Fonte Nova
A notícia foi divulgada pela TV Bahia, no jornal BA TV da noite de terça-feira, como resultado de uma “reunião entre o governo do Estado e representantes da arena”, acrescentando que “a nova data de inauguração deve ser divulgada amanhã”.

O quadro é de tal forma confuso que na última segunda-feira o secretário para assuntos da Copa do Mundo, Ney Campello, em primor de declaração, afirmou à imprensa que a data de inauguração poderia ser mantida, antecipada ou adiada.

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Dilma viria em abril para faz-de-conta – Absurdo maior pode ser constatado na informação final da matéria: “O consórcio responsável mantém a previsão da entrega da arena ao governo para depois de amanhã, dia 28 de fevereiro”.

Na verdade, a conclusão dos serviços demanda pelo menos mais 60 dias de trabalho, levando à conclusão de que a solenidade prevista para abril, com a presença da presidente Dilma Rousseff, não passaria de um jogo de cena.

Fonte deste blog assegura que a “inauguração” que o governador Jaques Wagner fará com Dilma esconderá da presidente, até com tapumes de gesso, partes da obra em andamento, especialmente de acabamento.

Blog questionou erro de projeto na cobertura – Não é segredo para os leitores de Por Escrito, e entre eles deve haver alguns com responsabilidade no governo do Estado, que pode ter ocorrido um erro de projeto na obra de cobertura da Arena Fonte Nova.

O assunto foi levantado em postagem do dia 5 de janeiro, em nota intitulada “Fonte Nova seria coberta com ‘armengue’”. A membrana de cobertura não estaria ajustada à estrutura de sustentação, adiando a colocação, antes prevista para dezembro.

No dia 7, transcrevemos a íntegra de comunicado que recebemos do consórcio construtor da arena, formado pelas empresas Odebrecht e OAS e denominado Fonte Nova Participações, em que não foi desmentido expressamente o suposto “erro de projeto”.

Consórcio não respondeu sobre contratação da 3M – No dia 17 de fevereiro, citando “fonte bastante próxima do empreendimento”, este blog informou que havia sido contratada “a conhecida empresa norte-americana 3M para tentar resolver as sérias dificuldades” para instalação da cobertura.

Reiterou-se, então, “um erro de projeto que estaria impedindo o encaixe correto – ou seja, parafusado – da membrana na estrutura metálica de sustentação da cobertura”, para o qual se tentou, sem êxito, “uma solução de engenharia”.

A empresa presta serviço à Nasa na colagem de componentes de foguetes, mas mesmo sua atuação, como dissemos no texto “Solução não serviria para a Copa do Mundo”, não tranquilizou a equipe técnica, já que cada folha da membrana pesa 1,5 tonelada, e um excesso de água de chuva poderia causar um acidente.

Passado de tragédias e segredo: 1971 e 2007 – Outra matéria da sequência, sob o título “Segurança é o motivo do questionamento”, destacava o interesse público em torno do tema e indagava aos responsáveis, entre outros aspectos, se “foi ou não contratada a 3M” e se “houve ou não um erro de projeto”.

Dessa vez, não houve preocupação do consórcio Odebrecht/OAS em dar uma resposta, o que remete ao passado recente e ao passado longínquo, quando episódios na Fonte Nova que resultaram em morte de torcedores foram cercados de mistério, permanecendo até hoje sem esclarecimento.

O primeiro, em 4 de março de 1971 – do qual este editor, no verdor dos 18 anos, foi uma das vítimas leves – tem uma explicação: o Brasil vivia o pior momento da ditadura militar, sob a presidência do general Emílio Médici, que estava presente, e a forte censura da época impediu a apuração e divulgação dos fatos.

Era a inauguração do lance superior do estádio, construído 21 anos antes, e durante toda a semana que a antecedeu a cidade foi tomada por boatos de que havia risco de desabamento. Com mais de 100 mil torcedores, um alarme falso provocou pânico.

As pessoas se atropelavam na correria, centenas foram pisoteadas, milhares se atiraram no fosso de mais de dois metros de profundidade, numa verdadeira cachoeira humana. A estatística oficial, no entanto, única permitida, indicou apenas dois mortos.

O segundo episódio, bem vivo na memória dos baianos, ocorreu em 25 de novembro de 2007, quando parte da arquibancada superior se rompeu, projetando de uma altura de 15 metros dezenas de torcedores, causando sete mortes e ferimentos graves em pelo menos 13 pessoas.

Seis anos já transcorreram sem que tenham sido apontados os culpados pela tragédia ou reparadas as consequências do ponto de vista cível, pois ainda há vítimas e familiares de mortos que lutam na Justiça por indenização. (Por Escrito)

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