Venezuela: desvalorização da moeda causa corrida a lojas de eletrônicos

Estoques de produtos como eletrodomésticos e eletrônicos se esgotaram em lojas da capital venezuelana neste fim de semana, quando filas nas portas dos estabelecimentos se tornaram cena recorrente. A situação é reflexo da desvalorização de 31,7% do bolívar ante o dólar, anunciada na sexta-feira, às vésperas do feriado prolongado do carnaval, pelo ministro das Finanças e Planejamento, Jorge Giordani. Analistas temem escassez e consequente alta dos preços desses bens, o que vai pressionar a já elevada inflação do país. A oposição voltou a criticar a medida ontem.

Segundo o jornal “El Universal”, bastava uma volta pelas ruas de Caracas para encontrar pessoas carregando três DVDs ou duas TVs debaixo do braço. Em algumas lojas, as vendas de eletrônicos dispararam, e os estoques se esgotaram em poucas horas.

— Vendemos até o que estava na vitrine — disse a vendedora Cenaida Cabrera.

Aéreas suspendem passagens – O economista Asdrúbal Olivero diz que a corrida ao comércio é sinal de que as importações desses bens serão afetadas pela maxidesvalorização do bolívar (de 4,30 para 6,30 por dólar), que passa a vigorar na quarta-feira. Isso deve acontecer porque esses segmentos ficarão de fora das prioridades do recém-criado órgão de controle cambial.

Desde 2003, a Venezuela controla o câmbio. O governo não só fixa a paridade do bolívar em relação ao dólar, como decide o total de moeda americana a que cada empresa ou cidadão pode ter acesso, por meio da Comissão de Administração de Divisas (Cadivi).

Em 2009, eletrônicos e eletrodomésticos foram excluídos da lista de prioridades da comissão. Sua importação dependia de solicitações dos importadores ao Sitme, o sistema administrado pelo Banco Central (BC) que liberava dólares para os que não eram contemplados pela Cadivi.

Oposição: ‘velhas políticas’ – As medidas anunciadas sexta-feira, porém, extinguem o Sitme e conferem ao novo Órgão Superior para Otimização do Sistema Cambial amplos poderes para ditar diretrizes que serão seguidas pela comissão.

Pequenas e médias empresas, que dependiam de solicitações ao Sitme, também serão afetadas, bem como viajantes ao exterior. Empresas aéreas bloquearam a venda de passagens, até se definir a alta real de tarifas. Nesse cenário, economistas preveem mais inflação, já em 22% em 12 meses.

Em seu blog, o governador do estado de Miranda e líder da oposição, Henrique Capriles, acusou o governo de repetir “velhas fórmulas de se fazer política”, segundo o jornal “El Nacional”. O deputado Julio Borges afirmou que as medidas vão “impactar de maneira muito dura toda a família venezuelana”. Já o presidente da Comissão de Finanças da Assembleia Nacional, Ricardo Sanguino, rebateu as críticas dizendo que as medidas são necessárias para fortalecer a produção interna. (O Globo)

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