Blocos de rua de São Paulo defendem modelo não empresarial de carnaval

Camila Maciel
Agência Brasil

São Paulo – Além do espetáculo dos desfiles das escolas de samba, que enchem os olhos dos espectadores no Anhembi, as folias de rua também animam o carnaval na capital paulista. Com orçamento pelo menos cinquenta vezes menor do que as agremiações do grupo especial, blocos e cordões carnavalescos defendem um modelo não empresarial da festa, a qual teria como principal motivação a alegria e a valorização do samba. “Trata-se de um retorno à coisa do brincar o carnaval”, explicou Renato Dias, fundador do cordão Kolombolo Diá Piratininga.

O Kolombolo, que desfila pelas ruas do bairro Vila Madalena, na zona oeste paulistana, surgiu em 2002 a partir de um grupo de músicos e produtores incomodados com a ideia de um carnaval exposto na mídia, “cada vez mais distante de suas origens”, explica Dias. “Todo esse espetáculo foi suprimindo a peça principal do carnaval, que é o sambista. O dinheiro foi passando por cima de tudo. É legal ter a coisa plástica, bonita, mas com a questão da competição, todo mundo começou a investir mais no negócio: as escolas de samba foram se tornando empresas”, critica.

Somente depois de quatro anos da fundação é que o cordão saiu pelas ruas. “A gente ficou um tempo fazendo pesquisa. Conversamos com sambistas da velha guarda para retomar essa história. Ninguém melhor do que eles para isso”, relatou. O fundador do bloco conta que esse contato foi fundamental para confirmar as críticas que faziam ao modelo de carnaval. “A queixa vinha muito ao encontro do que a gente estava conversando. Alguns nutriam uma mágoa, porque sabem que ainda tinham valor para a escola”, declarou.

Assim como o Kolombolo, pelos menos outros 47 blocos e cordões desfilam em São Paulo, tanto nos dias que antecedem a festa, quanto propriamente no carnaval. Parte das agremiações está vinculada a entidades que recebem recursos na prefeitura. “É difícil ter um número exato de blocos, bandas e cordões que saem: há muitos, uns 30, que não fazem parte das entidades”, explica o jornalista Cândido José de Souza Neto, presidente da Associação das Bandas Carnavalescas de São Paulo (Abasp).

Outras três entidades paulistas também recebem verba da prefeitura para organizar os desfiles, tanto das escolas de samba, sob responsabilidade da Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo e da União das Escolas de Samba de São Paulo (Uesp), quanto dos blocos, encabeçada pela Associação das Bandas, Blocos e Cordões Carnavalescos do Município de São Paulo (ABBC), além da Abasp. De acordo com a São Paulo Turismo (SPTuris), R$ 12 milhões é o total distribuído entre as entidades. O valor representa a metade do orçamento total do carnaval paulista, que é de R$ 24 milhões.

De acordo com Cândido Neto, a Abasp receberá este ano R$ 124 mil, a serem repartidos entre nove bandas, filiadas à associação, e três grupos convidados. “Agora, 10% desse dinheiro vão manter a entidade durante todo o ano”, explica. Ele destaca, no entanto, que o montante só é suficiente para pagamento de um contador, uma assessora de imprensa e um advogado. “Mas nenhum tem vínculo empregatício. São todos por contrato de prestação de serviço. Até hoje não temos uma sede”, aponta.

Diferentemente das escolas de samba, que tem como uma de suas principais características atuais a profissionalização, nos blocos o trabalho é voluntário. “Muitas vezes são amigos de bar, de faculdade ou músicos que se juntaram para sair no carnaval. Cada um assume uma tarefa e faz funcionar. É mais espontâneo” explica Renato Dias.

No Kolombolo, por exemplo, só há remuneração para os músicos quando um show é contratado, informou o integrante da agremiação, que conta aproximadamente com 60 membros ativos. “Cerca de 30 pessoas fazem parte da ala de compositores que se reúne todas as sextas-feiras. Agora, fora isso, tem as mais de duas mil pessoas que acompanham o desfile e também chegam pra tocar no dia”, explica.

Apesar de aglutinarem grande número de foliões e provocarem impactos no ambiente urbano, os blocos e cordões que não estão vinculados às entidades reconhecidas pelo poder público têm encontrado dificuldades para obter apoio logístico e autorização para fazer a festa na rua. É o que relata a gestora cultural e também fundadora do Kolombolo, Lígia Fernandes. “No ano passado, o desfile foi interrompido pela polícia”, relatou. Com objetivo de abrir um canal de diálogo com os órgãos competentes, 24 blocos assinam o Manifesto Carnavalista.

“Nossa ideia com o documento era abrir o diálogo e pensar soluções. A gente sabe que causa transtornos, mas sem o apoio, sem autorização, não há como fazer o mínimo que é o trânsito. Acertar exatamente o que é responsabilidade da prefeitura e o que é nosso dever. Isso é o que falta”, explica. Na avaliação de Lígia, a movimentação dos blocos em torno da questão já demonstra avanços, tendo em vista que representantes estão em diálogo com a prefeitura para discussão das regras para esses desfiles. “A gente não quer ser ilegal no carnaval”, reforça.

De acordo com Everaldo Dourado Júnior, diretor de eventos da SPTuris, a solução para este ano é a assinatura de um termo de parceria com representantes dos blocos e cordões. “A dificuldade [de conceder autorização] sempre se deu por conta da informalidade. Queremos que eles saiam da informalidade e sejam inseridos dentro das regras da própria vida da cidade”, avaliou.

Ele afirma que o tema já estava sendo debatido desde o ano passado. Será viabilizado este ano. “Vamos ajudar esses blocos saírem. É provável que alguns ainda saiam na informalidade, mas vamos mapear para que isso seja completamente regulado já no próximo ano”, destacou. Dentre as regras a serem definidas estão: horário de início e término dos desfiles, previsão de público, quantidade necessária de banheiros químicos, dentre outras.

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