Sindicatos convocam marcha contra congelamento de preços na Argentina

Monica Yanakiew
Correspondente da EBC

Buenos Aires – As duas principais centrais sindicais argentinas, ambas de oposição, convocaram dois protestos para os dias 8 e 14 de março, com o objetivo de pedir mais planos de ajuda social e o direito de negociar aumentos salariais “sem teto”. A decisão da Confederação Geral do Trabalho (CGT) e da Central de Trabalhadores da Argentina (CTA) foi anunciada na mesma semana em que o governo fecha acordos de congelamento de preços, por dois meses, com as principais redes de supermercados e de lojas de eletrodomésticos e eletrônicos.

Nessa quarta-feira (6), os supermercados chineses – que são menores, mas cada vez mais numerosos – anunciaram adesão à proposta do secretário do Interior, Guillermo Moreno, de manter os preços fixos até abril. Existem 10 mil supermercados chineses em toda a Argentina e eles têm até cartão de crédito próprio para competir com as grandes cadeias. O congelamento de preços temporário é voluntário, mas quem não aderir corre o risco de perder fatias do mercado.

A subsecretária de Defesa do Consumidor, Maria Lucila Colombo, recomendou aos consumidores argentinos que guardem os comprovantes de compras e denunciem aumentos abusivos. Segundo ela, o congelamento temporário de preços foi proposto para ajudar a “economia familiar”, mas, segundo os sindicalistas, trata-se de medida para camuflar a inflação real e limitar os reajustes salariais.

“Com o congelamento de preços, por 60 dias, o governo tem a intenção de colocar um teto aos pedidos de aumento salarial e isso nós vamos rejeitar”, disse o líder da CGT, Hugo Moyano. A partir de maio, o sindicalista – que até recentemente era um dos principais aliados do governo – ia começar a negociar aumentos salariais de 30% (três vezes mais que a inflação oficial).

Na Argentina, os reajustes salariais são decididos nas chamadas “paritárias” – acordos negociados entre trabalhadores e empresários que precisam ser ratificados pelo Ministério do Trabalho. Apesar de a inflação oficial não chegar a 10% ao ano, o governo tem concedido aumentos superiores. “Ao fazer isso está, de certa forma, reconhecendo que a inflação real é maior que a oficial”, disse à Agência Brasil o ex-ministro da Economia (de Nestor e Cristina Kirchner), Roberto Lavagna. Mas, este ano, o governo não quer conceder aumentos superiores a 20% e os sindicatos, baseando-se no que chamam “índice do supermercado”, pediam mais.

O congelamento de preços temporário também coincide com a volta às aulas, no fim de fevereiro. É o momento em que as famílias argentinas mais sentem o peso da inflação: terminadas as férias, é hora de fazer matrícula e comprar material escolar. “Mudei minha filha de creche porque, no ano passado, a mensalidade praticamente duplicou e as vagas no sistema público, além de escassas, são difíceis de conseguir. Tive que colocá-la em uma creche privada para poder trabalhar”, disse a empregada doméstica Nancy Garcia.

Notícias Relacionadas