Astrid Fontenelle luta para ficar bem e cuidar do filho Gabriel

Astrid é portadora de lúpus, doença autoimune que pode atacar órgãos vitais. (Foto: Reprodução)
MÔNICA BERGAMO

Um cesto de Havaianas no hall de entrada é o convite para deixar sapatos e germes do lado de fora do dúplex no Morumbi, em São Paulo. O álcool gel no móvel da sala é outra pista da fragilidade da saúde de Astrid Fontenelle, 51, a dona da casa.

Há oito meses, a apresentadora do canal GNT trava uma batalha muito particular contra o próprio corpo. É portadora de lúpus, doença autoimune que pode atacar órgãos vitais. No caso dela, pulmão e rim foram atingidos. “Quando voltei pra casa depois de 12 dias internada, minha imunidade era tão baixa que o médico tocou o terror”, relata Astrid à repórter Eliane Trindade.

Até a água do banho passou a ser filtrada. Além de cuidados para evitar infecções, o inimigo é combatido com 45 comprimidos por dia, um coquetel de remédios para pressão, diabetes, dor e vitaminas, entre outros. “Não tem cura. Vou conviver com a doença por muito tempo.”

Ela não pode nunca mais se expor ao sol: o vírus identifica queimaduras como infecção e ataca o corpo. O tratamento inicial provocou queda de cabelo. Decidiu raspar a cabeça. “Não quero novela das oito aqui. Nem ninguém olhando pra mim com cara de tristeza”, avisou.

O filho Gabriel, 4, deu o tom. “Com ele na área, não deu tempo de sofrer. Olhou pra minha cara e caiu na gargalhada: ‘A mamãe tá careca’. Ele só ria.”

Avisou o cabeleireiro: “Quero uma prótese capilar colada na cabeça igual à que a nega [Naomi Campbell] usa”. “Ficou incrível. Ninguém se tocou que era peruca.” Encarar o espelho foi tranquilo. “Difícil foi ficar à beira de fazer hemodiálise.”

Ao chegar ao hospital Albert Einstein, pesava 64kg. Hoje está com 50kg. “Parecia um peixe-boi. Tava tão inchada que a mão não fechava pra pegar o volante e dirigir”, diz. “O meu erro foi, por nove meses, ter achado que a perna inchava por viajar muito e trabalhar horas em pé no aeroporto. Burra!”

Há dois meses, descobriu uma manchinha nas costas. “Parecia mordida de mosquito, mas se alastrou do umbigo até a coluna.” Sintomas de herpes-zoster. As placas vermelhas já sumiram. Ficaram as dores nas terminações nervosas. “É como se fosse uma queimadura. Tomo remédio, alivia. O médico diz que vai passar. Só não sabe quando.”

Outro efeito colateral é não subir mais no salto. “Desafiei as bonitas da moda a me dizer como ser elegante sem salto”, diverte-se. Foi ao shopping e se encheu de rasteirinhas. “Desapeguei. Dei todos os sapatos de salto. Os Louboutin e Lanvin vou botar num site pra vender e virar remédio.” Cada caixa de medicamento contra lúpus custa R$ 690. Ela consome duas por mês.

“Não tive tempo de ficar deprimida. Meu divã sou eu, meu filho, meus amigos. Rezei muito. Sempre fui católica e simpatizante do candomblé. Aprendi a respeitar todas as religiões.” Carrega no corpo e na bolsa patuás, santinhos e medalhas milagrosas.

“Por que meu corpo quer me destruir? Justo quando tava tudo certo na vida: recém-casada, curtindo meu filho fofo. Tinha acabado de ser premiada”, pergunta-se Astrid. “Chegadas e Partidas” foi eleito melhor programa de 2011 pela Associação Paulista de Críticos de Arte. Em maio, ela revelou seu drama no próprio programa.

“Sabia que o meu tamanho permitia. Não ia ser uma comoção nacional nem teria paparazzi na porta para me flagrar careca. Não sou Gianecchini nem Hebe.”

Nas redes sociais, uma enxurrada de vibrações positivas. O primeiro post sobre a doença no Twitter foi às quatro da manhã, véspera de um exame. “Foi uma loucura. É tipo aniversário no Facebook. Você se sente a pessoa mais querida do mundo. A primeira a mandar mensagem foi Eliana Tranchesi [dona da Daslu] que morreria logo depois [vítima de um câncer]. Precisava de calor humano.”

O filho Gabriel foi adotado pela apresentadora em 2007, aos 40 dias de vida. Sentado no sofá, ainda com uniforme da escola bilíngue, ele pega o presente que mais curtiu: um violão. Diz que aprende a tocar vendo o DVD do “vô Gil”, referindo-se a Gilberto Gil, baiano como ele.

Foi em um fórum de Salvador que Astrid e Gabriel se encontraram. “Quando vi o garoto chorando no colo da assistente social, eu arranquei ele da mulher: ‘Meu filho!’. Parecia cena da maternidade”, relata, emocionada. Um mês depois, oficializava a adoção. É mãe solteira. Na época, namorava o produtor musical Fausto Franco há apenas um mês. Astrid diz que ele é “pai em exercício”.

Correu para montar o quarto do bebê. O vendedor foi convencido da urgência. “Você não tá entendendo. Existem crianças que nascem do tal papai e mamãe. Outras, com a tecnologia. A minha nasceu por adoção.”

“Outro dia um coleguinha chamou ele de pretinho em tom pejorativo”, conta Astrid. Em casa, Gabriel perguntou qual era a sua cor. “Você é negro, filho.” Ele rebateu: “Não, mãe, essa cor aqui”, apontou para a pele. “É marrom, querido. Mamãe é bege. Você é negro, eu sou branca. É nossa raça.” O tema racismo emergiu: “Preconceito existe. O importante é fortalecer a estima e ele entender que é negro, é lindo, inteligente.”

“O Gabriel ainda não teve toda a informação para bater perna sozinho no mundo”, diz Astrid. “Seria uma sacanagem eu ficar comprometida ou morrer. Deus não pode fazer isso com ele. Tenho que ficar boa pelo meu filho.” (Folha de São Paulo)

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