Quarta noite de mostra do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro tem público recorde

Carolina Gonçalves
Agência Brasil

Brasília – A chuva que suavizou o clima na capital do país na noite de ontem (21), depois de quase três meses de seca, não intimidou o público do 45º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Surpreendendo as expectativas em função do mau tempo, a quarta sessão de exibições das mostras competitivas reuniu a maior plateia de todos os dias do evento.

Os dois grandes momentos da noite estiveram nas mãos de dois diretores pernambucanos. Com o longa-metragem Doméstica, Gabriel Mascaro apresentou universos diferentes das relações entre empregados e patrões.

“Meu desafio foi imaginar que as empregadas participam dos lares brasileiros, no cotidiano das famílias. E propus uma troca deste olhar, onde o jovem vai passar a olhar para o universo desta empregada. É uma inversão do olhar que se transforma em cinema”, descreveu Mascaro minutos depois da exibição.

O documentário foi construído a partir de filmagens feitas por filhos de donas de casa, em várias cidades do país e em condições bem diversas. O trabalho durou um ano entre a seleção de famílias e a edição do material recolhido, momento que o diretor descreve como complexo. “É um ensaio sobre afeto e trabalho”, define.

Esta é a primeira vez que Mascaro participa do Festival de Brasília. Admitindo a ansiedade nos minutos que antecederam a apresentação do documentário, o diretor comemorou a reação do público que aplaudiu intensamente a produção. “É um trabalho de muito tempo que você vê funcionando, com as pessoas que se emocionaram. Você pensa: valeu fazer este filme”.

Na tela da Sala Villa-Lobos, do Teatro Nacional, a plateia acompanhou momentos dramáticos como o da doméstica que, ao cuidar por três meses de uma senhora que havia sido operada, perdeu o convívio com o filho, assassinado logo no final desse período.

As relações afetivas e próximas estabelecidas entre patrões e suas empregadas foram destacadas em trechos da trama como a história filmada por Ju, filha da dona de casa Lúcia, e Lena, a empregada doméstica “adotada” pela família.

Os casos retratados no longa ainda mostraram realidades atípicas como a do empregado Sérgio, abandonado por sua família, e da empregada doméstica Flávia que trabalha na casa de outra empregada doméstica, mãe de Bia, adolescente que passa a maior parte do tempo sozinha com Flávia e seu irmão, que tem problemas de saúde.

“Nossa, gostei muito. Acho que a sensibilidade de juntar estes dois universos, em que há relações muito confusas de trabalho e vida pessoal, de pessoas brancas, pretas, ricas e pobres, mas que convivem no espaço da casa. Tem carinho, tem tensão, tem conflito e acho que é um filme sensível”, disse Caio Csermak, antropólogo que foi assistir a mostra da sexta-feira.

Para a psicóloga Flávia Agra, Doméstica proporcionou uma experiência nova e o mergulho no olhar diferente proposto pelo diretor. “Acho que ele me fez mergulhar em um universo que eu só conhecia por um lado e pude experimentar o outro e, para mim, foi muito especial isto”.

No desfecho da noite, o longa-metragem de ficção Era Uma Vez Eu, Verônica, percorreu a crise existencial vivida pela protagonista da trama. “É um filme filosófico, existencialista, uma viagem reflexiva a partir das dúvidas, certezas, emoções, sonhos, medos, perspectivas de perda. São questões universais que a gente, às vezes, nesta vida louca não tem tempo de sentar e refletir. Verônica propõe refletir junto neste diário íntimo”, descreveu o diretor pernambucano Marcelo Gomes.

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