Desigualdade regional marca dificuldade de acesso ao cinema no Brasil

Gilberto Costa
Agência Brasil

Brasília – O poeta irlandês Oscar Wilde escreveu que “a vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida”. A célebre frase não deve valer para o cinema brasileiro. Por aqui, a fruição da sétima arte é que imita a vida. A distribuição de salas de cinemas no Brasil e o acesso da população reproduzem a concentração socioeconômica e a desigualdade regional do país, conforme dados da Agência Nacional de Cinema (Ancine).

De cada dez salas de cinema no Brasil, sete estão em cinco estados do Sudeste e do Sul (São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraná). Mais da metade está nos estados do Rio e de São Paulo. Seis de cada dez salas estão localizadas em 38 municípios com mais de 500 mil habitantes, que respondem por apenas 0,68% dos 5.565 municípios brasileiros. A concentração de salas de cinema é maior do que a da população: há 101,1 milhões de pessoas nessas cidades, equivalente a 53% dos mais de 190 milhões de habitantes contados pelo Censo Populacional 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Em 2011, menos de 2% dos ingressos vendidos foram nas bilheterias de municípios com menos de 100 mil habitantes. Dentro das cidades com cinema, também há concentração espacial das salas: 85% do “parque exibidor” estão instalados em shoppings ou centros comerciais. Duas grandes redes de salas de cinema (Cinemark e Severiano Ribeiro) concentram 44,5% dos ingressos vendidos aos sábados (o dia da semana de maior público).

O diretor-presidente da Ancine, Manoel Rangel, reconhece a concentração, mas pondera: “É preciso pensar na realidade do que são os municípios.” Segundo ele, cerca de 4 mil municípios têm menos de 20 mil habitantes. Com o mercado pequeno e a baixa renda per capita, as pequenas cidades “não têm viabilidade para manter salas de cinema em modelo comercial”. “Cabe ao Estado regular e induzir. Mas não basta a vontade, tem que partir das condições objetivas”, ressaltou ao lembrar que a instalação de cinemas é uma “decisão de agentes privados.”

Para Júlia Moraes, assistente de direção e produtora dos filmes Amarelo Manga (2003), Baixio das Bestas(2006) eFebre do Rato (2011), “o cinema no Brasil é de elite, quase um luxo” e esbarra no “problema grave de cultura e educação”. Na opinião da produtora, o problema social se agrava com a má circulação das cópias das películas para exibição dos filmes. “Há um gargalo na distribuição. O resultado é que o filme nunca chega ao público dele”, observa.

Para José Roberto Sadek, secretário adjunto de Cultura da cidade de São Paulo e professor de roteiro da Fundação Armando Alvares Penteado (Faap), a “distribuição de filmes é cara”, o que onera o envio de películas para diversos lugares. Ele espera que o cinema digital barateie a distribuição. “O digital vai causar impacto no custo da película,” avalia.

Além da exibição de filmes no Brasil estar concentrada regionalmente, Sadek lembra que é da natureza do cinema a concentração das produções em alguns locais. Isso ocorre porque “a mão de obra é cara, assim como o equipamento e a finalização”, Segundo ele, São Paulo e Rio “estão perto dos estúdios e das emissoras de TV.”

“O dinheiro está aqui, assim como a maioria das produtoras e a maioria dos profissionais”, complementa o brasiliense Luiz Roberto Menegaz, diretor de cinema independente e que vive em São Paulo. “Se não mora no Rio ou em São Paulo, é muito difícil ser levado a sério”, lamenta, ao recomendar que “mesmo sendo uma produção amazônica é melhor vir para o Sudeste.”

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