Com saudades de Lula, sindicalismo tromba com Dilma

Mais cedo do que imaginavam, os movimentos sindicais descobriram razões para ter saudades da Era Lula. Depois de oito anos de intimidade com o Planalto, perceberam nas últimas duas semanas que, na cadeira do velho amigo do ABC que lhes garantiu tantos avanços, está sentada uma economista exigente, que diz não ter dinheiro para reajustes e que, de quebra, avisa que vai cuidar primeiro de outros brasileiros mais desprotegidos.

Foi uma surpresa atrás da outra. Nas negociações com 36 categorias, que representam cerca de 1 milhão de trabalhadores, a presidente Dilma Rousseff mandou sua equipe negociar diretamente com as categorias – sem as centrais. Por fim, na última quinta-feira recorreu ao Superior Tribunal de Justiça para proibir operações-padrão de policiais em portos, estradas e aeroportos.

Antes desse gesto nada amistoso, houve reuniões tensas sobre quanto gastar, sobre qual a urgência maior – os professores universitários, os fiscais aduaneiros, os policiais federais… A certa altura, o secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, avisou que o ponto dos grevistas seria cortado. “Isso faz parte do passado”, retrucou no ato Oton Neves, do Sindicato dos Servidores Públicos Federais.

“De fato, Dilma não tem relação afetiva ou profissional com o movimento sindical”, admite o economista Antonio Augusto de Queiroz, do Departamento Intersindical de Assuntos Parlamentares, o Diap. “Ela não os recebe com a frequência de Lula. Seus ministros não têm origem sindical nem são do serviço público.”

Familiarizado com os meandros que ligam os sindicatos a Brasília, o professor de Sociologia do Trabalho da Unicamp, Ricardo Antunes, define o episódio como “o primeiro grande impasse do governo Dilma na área social”. Segundo Antunes, “até mesmo a Central Única dos Trabalhadores e a Força Sindical reconhecem a postura dura de Dilma”. Seu governo não tem ministros dialogando com trabalhadores “e o Ministério do Planejamento, que devia fazer as contas e programar as negociações, não tem lastro social”.

Longe do PT – A resistência da presidente em negociar com as centrais sindicais incomoda dirigentes e parlamentares do PT. Em conversas reservadas, eles afirmam que o governo do PT está, sim, se distanciando de suas bases, o que é preocupante num ano eleitoral como o de 2012.

Apesar de dizerem em público que Dilma está certa em não ceder aos grevistas, esses dirigentes do PT avaliam, a portas fechadas, que o governo perdeu o “timing” da negociação, deixou o movimento fugir do controle e, agora, a fatura cobrada poderá ser bem maior.

Na quarta-feira, quando esses comentários já circulavam, a presidente anunciou um vasto plano de concessões de ferrovias e rodovias à iniciativa privada – coisa de R$ 120 bilhões em 30 anos. Com isso, ao estranhamento na negociação sindical se somou uma desconfiança quanto ao seu compromisso com o modo petista de governar.

Correção de rota – Nesse cenário, o cientista político José Alvaro Moisés, da USP, descarta as versões de um afastamento de Dilma das origens lulistas de seu governo. Não há “um deslocamento ideológico” para uma posição menos à esquerda, mas “uma correção de rota” de um governo de esquerda que “tenta dar mais racionalidade às suas ações”.

Moisés vê nesse embate duas coisas em jogo. Primeiro, o tipo de coalizão que sustenta o atual governo – grupos “que querem compartilhar o poder, mas não as responsabilidades de governar”. Nem a CUT nem o PT, diz ele, expressam solidariedade à presidente, numa situação em que ela aparentemente quer aplicar critérios de racionalidade às negociações com os grevistas. Segundo: as centrais tentam aproveitar o atual episódio para “recuperar o terreno perdido” para grupos surgidos mais à esquerda, no movimento trabalhista. (Estadão)

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