Blogs ‘chapa-branca’ fazem a festa com dinheiro público na Bahia

Subserviência ao governo é um negócio muito rentável para a mídia amestrada que povoa a internet na Bahia

ANTONIO RAIMUNDO DA SILVEIRA

A publicidade oficial é a alma do negócio para blogs e sites ‘chapa-branca’ na Bahia. Não importa a audiência e tampouco a credibilidade do veículo, basta fazer o jogo do governo estadual e cair nas graças da Agecom — a agência de comunicação do governo Wagner — para ser aquinhoado com anúncios a preços superfaturados como nunca se viu no Estado.

ROBINSON ALMEIDA -- anúncios oficiais superfaturados engordam os caixas de blogs e sites dos chamados 'barões da internet baiana'
ROBINSON ALMEIDA – sempre salgado, preço dos anúncios varia de acordo com o compadrio ou o potencial ofensivo dos colunistas premiados com as verbas governamentais

A subserviência ao governo é um negócio muito rentável para a mídia amestrada que povoa a internet na Bahia. Prova disso é que termina o ano apresentando faturamento obeso em relação à audiência que realmente tem, baseado numa tabela de preços que faria inveja aos maiores portais de internet do país.

Os leitores, por sua vez, consomem conteúdo viciado, preparado de acordo com a receita oficial e publicado sem questionamento pelos veículos, que não apuram a veracidade das informações apresentadas pelo governo.

Para blogs e sites ‘chapa-branca’, a publicidade ‘cala-boca’ é um negócio da China. A Agecom não obedece aos preços de mercado nem usa o critério do custo por mil visualizações para calcular o valor a ser pago — como fazem as agências de publicidade das empresas que prestam contas a seus acionistas.

Em vez de exigir que um anúncio seja exibido determinado número de vezes, por um valor especificado, como é praxe no mercado, o Governo do Estado prefere um método pouco ortodoxo: faz o pagamento por campanha e o preço, sempre salgado, varia de acordo com o compadrio ou o potencial ofensivo do blogueiro premiado com as verbas governamentais.

É um negócio de pai para filho, que não é auditado e sequer licitado. Um autêntico ‘toma lá, dá cá’ em que o dinheiro público escorre pelo ralo sem controle e sem fiscalização. Neste mercado paralelo, blogs e sites ‘chapa-branca’ vendem ao Estado ouro 18 e entregam ‘ouro de tolo’, com a evidente cumplicidade da direção da Agecom.

“Se você dividir o valor que o Estado paga a cada um desses sites e blogs pelo número de vezes que cada anúncio é visualizado, descobrirá que o custo por mil é estratosférico”, diz um experiente especialista do mercado.

Ação petista com método carlista

O uso do dinheiro público para cooptar colaboradores não é novidade na Bahia. O governo Wagner adota a mesma técnica do carlismo e usa os mesmos métodos que antes criticava. Dessa forma, não teve muita dificuldade para ‘azeitar’ a mídia online ligada aos meios políticos, fazendo-a trabalhar a seu favor.

O tilintar das moedas petistas operaram milagres. Personagens que se beneficiaram durante os governos carlistas descobriram que o governo do PT também tem seus atrativos. É a velha tática de uma mão lavar a outra.

Nos últimos quatro anos sites e blogs surgiram do nada e engordaram a olhos vistos às custas da publicidade oficial, a ponto de manterem estruturas de funcionamento cuja manutenção não seria possível com a venda de espaços publicitários para o mercado em geral.

Além do Governo do Estado, muitas prefeituras e o Poder Legislativo anabolizam com dinheiro público os caixas dos blogs e sites dos chamados “barões da internet baiana”.

O blog campeão em faturamento é o Bahia Notícias, do colunista político Samuel Celestino. Para veicular cada campanha publicitária no blog o Estado paga R$ 40 mil. Com frequência, há três, quatro e até cinco campanhas do governo estadual rodando simultaneamente. O Bahia Já, de Tasso Franco, ex-secretário de Comunicação do carlista Antonio Imbassahy na Prefeitura de Salvador, e o Política Livre, do colunista Raul Monteiro, também recebem publicidade oficial.

O ex-vereador Wanete Carvalho tem dois sites patrocinados pelo governo. Até Dimas Roque, um desconhecido empresário do setor de eventos, mantém em Paulo Afonso um blog e o site Notícias do Sertão com recursos estaduais. O blogueiro João Andrade Neto, do Pura Política, que acabou preso pela polícia, também era fortemente patrocinado pelo Estado. No total são mais de meia centena de sites e blogs sustentados com dinheiro público na Bahia.

O mais grave é que a Agecom é cúmplice da operação porque tem interesse na publicação, sem questionamentos, de notícias e factóides favoráveis ao governo e, ao mesmo tempo, usa o ‘capilé’ oficial para vacinar o sistema contra a publicação de assuntos comprometedores.

O assunto é um verdadeiro fio desencapado com milhões de volts circulando sem controle.

Cadê o TCE?

Se o assessor-geral de Comunicação do Estado, o engenheiro eletricista Robinson Almeida, tivesse interesse em controlar a aplicação da verba publicitária na internet com transparência, a primeira ação quando o governo decidiu veicular propaganda na mídia online seria manter na Agecom um servidor de anúncios.

Trata-se de um sistema utilizado por agências de propaganda para fazer o controle do tráfego de peças publicitárias na web através da inserção de um código nas páginas dos sites onde os anúncios serão apresentados. A agência só paga o número de visualizações que foi contratado. Mas para o Governo do Estado isso é o que menos importa.

O Tribunal da Contas do Estado vai ter muitas surpresas se resolver investigar a aplicação da verba publicitária do governo Wagner. Isto é, se investigar, é claro. Se fizerem uma análise cuidadosa, inclusive verificando os custos de produção, os conselheiros poderão tomar um choque com o que encontrar. O assunto é um verdadeiro fio desencapado com milhões de volts circulando sem controle.

Dá mesmo para acreditar que o TCE vai fiscalizar como o Governo Wagner gasta o dinheiro público com propaganda?

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6 Comentários

  1. Sandro

    A Bahia está nesta merda por causa desse tipo de coisa. Um governo incompetente e a mídia comprada endeusando o que não existe, com muita mentira.

  2. Tiago

    É por isso que a imprensa não tá divulgando tudo sobre a greve dos professores e fica fazendo o jogo do governo, tá toda comprada. O PT que sempre criticou ACM tá fazendo pior que ele.

  3. Lenise Ferreira

    Só a título de informação. Fui uma das vítimas do blogueiro JOÃO ANDRADE NETO e até hoje ele vem gozando dos benefícios oriundos das falhas no judiciário. Desde 2010 que venho lutando para ao menos sentar frente a frente com aquele infeliz e corro o risco de ver o crime prescrito. O infeliz obteve direito à prisão domiciliar alegando problemas de saúde mas é visto em butecos alimentando o baú de fofocas que ele costuma sustentar. Faltou a audiências apresentando atestados médicos. Depois o tribunal mudou de endereço e mais uma vez adiou audiência. Da última vez não houve convocação das partes. Com isto o tempo passa e o infeliz não vai dizer quem pagou a ele para falar as barbaridades que falou sobre mim. Na época ele costumava combater o governo Wagner mas recebia sim e havia no seu site várias propagandas de órgãos públicos. Acredito que não era de graça.
    ESTE É O BRASIL DO QUAL JÁ SENTI ORGULHO DE TRAZER NO PEITO.

  4. Lafaiete de Souza Spínola

    Para amenizar nossas mazelas:

    O caminho para resolver os problemas estruturais e amenizar as injustiças sociais do Brasil está, basicamente, atrelado à EDUCAÇÃO. Precisamos, com urgência, investir, pelo menos 15% do PIB no orçamento da educação. Deve ser disponibilizada escola com tempo integral às nossas crianças, oferecendo, com qualidade: o café da manhã, o almoço, a janta, esporte e transporte, nas cidades e no campo.

    Como é uma medida prioritária, inicialmente, faz-se necessária uma mobilização nacional. Podemos, por certo tempo, solicitar o engajamento laico das Igrejas, associações, sindicatos e das nossas Forças Armadas (guerra contra o analfabetismo e o atraso) para essa grande empreitada inicial.

    A construção civil deve ser acionada para a construção de escolas de alta qualidade, com quadras esportivas, espaços culturais, áreas de refeição e cozinhas bem equipadas etc. Tudo isso exigindo qualidade, porém sem luxo. Durante esse período, o governo deve investir na preparação de professores para atender à grande demanda.

    Como esse projeto é de prioridade nacional, os recursos deverão vir, entre outros: de uma nova redistribuição da nossa arrecadação; de uma renegociação da dívida pública; com a inclusão do bolsa família; com a criação de uma CPMF exclusiva para educação etc.

    Para a construção inicial dos centros educacionais e formação de professores, sugiro que se invista cerca de 40% das nossas reservas. Alerto, que sem a federalização esse projeto não terá sucesso.

  5. Jorge Roriz

    Parabenizo o site Jornal da Mídia pela excelente matéria. É preciso criar um lei que regulamente a publicidade nos meios de comunicação, principalmente em sites.
    Não existem critérios claros para a concessão da publicidade (que deveria ser a audiência) ou uma licitação pública. (todos concorreriam com critérios de igualdade, e venceria os sites com maior audiência e menor preço cobrado).
    Quais os critérios para a concessão de publicidade em sites? Critérios políticos ou de amizade? As regras não são claras e igualitárias. É um desrespeito com o dinheiro público e uma maneira de controlar a imprensa.

  6. Lourenço Júnior

    Até hoje você não entendeu a razão de boa parte da imprensa ter ficado contra os professores estadais durante a última greve e dado amplo espaço ao governo para divulgar mentiras ao público sem questionamento??? Então confira essa notícia e entenda porque o radialista Samuel Celestino gasta tanto tempo afirmando que o governador Jaques Wagner possui “olhos azuis sedutores” e ser um “ótimo negociador” ou Daniela Prata gritar “graças ao meu bom Deus” quando é anunciada alguma obra, ou intenção de obra, do Estado!!!

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