Em país de índio quem tem um olho é rei

ANTONIO RAIMUNDO DA SILVEIRA

No Brasil os indígenas só são lembrados no Dia do Índio ou, por exemplo, quando há conflitos de terras em áreas reivindicadas por remanescentes de antigas tribos. Em nosso cotidiano eles são apresentados como seres exóticos e arredios que vivem no mato e, aparentemente, sem ligação alguma conosco.

Embora tenham sido uma das matrizes responsáveis pela formação do povo brasileiro, os habitantes autóctones do Brasil são relegados ao esquecimento e até as estatísticas oficiais são utilizadas para escamotear sua participação no caldeirão étnico que forma nossa população.

Um cidadão comum com a aparência deste cacique seria classificado como pardo para efeito de recenseamento.
Um cidadão comum com a aparência deste cacique seria classificado como pardo para efeito de recenseamento.
Um exemplo flagrante tem como referência o Censo realizado pelo IBGE. Já se tornou padrão dizer-se que a população brasileira é formada por 54% de brancos e 46% de negros. Trata-se de tema recorrente em entrevistas, artigos, declarações oficiais e coisas que tais. A participação indígena na formação do nosso povo desaparece como por encanto por conta desse tipo de abordagem.

Uma prova científica — O censo de 2000 revela a existência de pouco mais de 700 mil índios, número que corresponde a menos de um por cento da população do país. Como o censo é feito com base na declaração do recenseado e nossa herança indígena foi apagada meticulosamente de nossas mentes com o passar do tempo, quando se fala sobre cor e raça no Brasil automaticamente nos defrontamos com o binômio branco/negro. Tudo nos leva a acreditar que o legado indígena não existe.

Se há negros que não têm consciência da sua própria raça e declaram-se como morenos, imagine quem tem ascendência indígena e nem sabe disso. Portanto, caso alguém que tenha antepassados indígenas se declare moreno, moreno escuro, misturado ou seja lá o que for, oficialmente será classificado como pardo.

Na verdade, os dados censitários referem-se apenas aos índios que vivem nas reservas, falhando na determinação de seus descendentes que certamente formam a maioria da população brasileira.

Parte dessa multidão branqueou através do processo de miscigenação com brancos, outra parte manteve características típicas dos índios, outros escureceram no cruzamento com negros e um quarto grupo ficou naquela faixa ambígua em que os indíviduos apresentam sinais nítidos da mistura de raças. O censo engloba sob o rótulo de pardos quem pertence aos dois últimos grupos, que corresponde a 40,4% da população brasileira.

Pesquisa realizada pelos departamentos de bioquímica e biologia da Universidade Federal de Minas Gerais constatou cientificamente parte dessa realidade.

Tomando-se como base 200 homens e mulheres brancos de regiões e origens sociais diversas, os pesquisadores Sérgio Pena, Denise Carvalho Silva, Juliana Alves Silva, Vânia Prado e Fabrício Santos examinaram amostras de DNA do grupo e detectaram que de cada cem pessoas brancas só 39 têm linhagem exclusivamente européia. Os restantes 61% são frutos da miscigenação, isto é, 33% são misturados com índio e 28% com preto. Imagine o que se detectará quando amostras do DNA de pardos e pretos forem analisadas.

Neta de índia, a morena Luiza Brunet e sua loira filha Yasmin
Neta de índia, a morena Luiza Brunet e sua loira filha Yasmin
Pardo ou mestiço? — Para efeito de recenseamento, leva-se em consideração a cor da pele declarada pelo recenseado. Dessa forma, são classificados como pardos quem não se declara como branco, preto, índio ou amarelo. Cai nessa classificação quem diz que é mameluco ou caboclo (produto do cruzamento de índios com brancos), mulato (produto do cruzamento de brancos com pretos), cafuzo (produto do cruzamento de pretos com índios), moreno e por aí vai.

Como não existe a cor índia, ou coisa que o valha, o IBGE bem que poderia usar a palavra ‘morena’ para tornar mais fácil a determinação dos descendentes dessa etnia durante o recenseamento. Afinal, se os descendentes de brancos, pretos e amarelos — miscigenados ou não — têm a opção de declarar seus tons de pele durante o censo, por que então os descendentes de índios não podem ter o mesmo direito também?

Além do mais, para tornar mais visível estatisticamente o processo de miscigenação ocorrido no Brasil, o IBGE deveria utilizar o termo mestiço em vez de pardo para classificar as pessoas resultantes da mistura de raças.

Genocídio estatístico — O Censo de 2000 revela que a população brasileira é formada por 53,8% de brancos, 39,1% de pardos, 6,2% de pretos e 0,9% de amarelos e índios. Na determinação do número de negros (ou afro-descendentes), o que se faz é somar o total de pardos (39,1%) ao de pretos (6,2%), que seria desse modo 45,3% da população brasileira.

Até para efeito de políticas públicas, consideram-se afro-descendentes as pessoas de cor parda e preta. Posto nesses termos, os números deixam entender que os descendentes de índios não têm participação alguma no total da população brasileira.

Como se não bastasse terem suas terras invadidas por estrangeiros no início da colonização, terem sido escravizados, massacrados e discriminados, nossos antepassados indígenas vêem, dessa forma, sua descendência tornar-se vítima de um verdadeiro genocídio estatístico.

Esta aparente ausência de descendentes no seio da sociedade brasileira é um dos fatores da precária situação em que vivem os índios no Brasil. Caso existissem dados estatísticos revelando que grande parte da população é índio-descendente e o povo tivesse consciência de ter sangue indígena correndo nas veias, seria mais fácil obter conquistas sociais para esses brasileiros que vivem no ostraciscmo e há séculos têm sido tratados com desprezo.

Todos parecem esquecer que o Brasil é um país majoritariamente mestiço com forte presença do índio em sua formação. Euclides da Cunha, um mameluco, atribuía a extinção do indígena em várias regiões do país mais aos cruzamentos sucessivos com brancos e negros do que a verdadeiros extermínios praticados pelos portugueses. Calcula-se que quando os portugueses descobriram o Brasil existiam entre cinco e seis milhões de índios em nosso território.

A teoria de Euclides da Cunha tem tudo para ser verdadeira. Caso não seja, estaríamos diante de um processo genocida comparável ao holocausto judeu, que resultou na morte de seis milhões de pessoas nos campos de concentração da Alemanha nazista durante a Segunda Guerra Mundial.

Pelos critérios do censo, o presidente Lula seria classificado como branco, preto, pardo ou índio?
Pelos critérios do censo, o presidente Lula seria classificado como branco, preto, pardo ou índio?
Castigo — Quem nunca ouviu falar de uma avó, bisavó ou tetravó índia “pegada no mato a dente de cachorro” ou “a casco de cavalo”? Os primeiros mestiços brasileiros foram os mamelucos, resultado das relações dos portugueses com as índias. Só com a chegada dos escravos africanos a mestiçagem se intensificou, surgindo os mulatos, os cafuzos e finalmente os pardos, que seriam a mistura de todos eles.

O engraçado é que tentam eliminar o elemento indígena das estatísticas, mas o dia-a-dia estampa em nossa cara indícios que os manipuladores não conseguem apagar. Embora imperceptíveis de um lado e flagrantes em outros, os hábitos, costumes e palavras de origem indígena aparecem em demasia aonde quer que a gente vá.

Dos nomes dos Estados (Pará, Paraná, Pernambuco, Paraíba, etc) aos das cidades e municípios (Itaparica, Itabuna, Itacaré, Araraquara, Taubaté, Curitiba, Aracaju, Niterói, etc), as palavras indígenas estão presentes em todos os momentos da nossa vida como se fossem um castigo dos nossos antepassados àqueles que teimam em eliminá-los do nosso imaginário.

Quem, no Brasil, nunca tomou banho num rio (Paraguaçu, Piracicaba, Jiquiriçá, Tietê, etc) ou numa praia (Itapuã, Copacabana, Iracema, Pajuçara, etc) com nome indígena? Ou conhece um bairro (Pituba, Iguatemi, Itaigara, Cambuci, Tatuapé, Jaçanã etc) ou uma pessoa (Caubi, Janaína, Ubiratã, Jurema, Maíra, etc) com nome de origem indígena?

“Sem ser índio, nem europeu, nem negro, o mestiço cria sua própria identidade étnica – a brasileira” (Darcy Ribeiro em “O Povo Brasileiro”)

Pipoca com guaraná — Diariamente convivemos com nomes de objetos, comidas, crendices (Você sabia que o Saci é originalmente indígena?), fenômenos naturais, nomes de lugares, de pessoas e outros nomes próprios, espécimes da fauna e da flora, frases feitas e ainda termos de uso geral herdados de nossos antepassados indígenas. Além disso, há inúmeros casos de verbos híbridos, formados com raízes indígenas — principalmente tupi — e terminações portuguesas.

Usamos em nosso cotidiano palavras como abacaxi, anágua, beiju, cajá, capim, capivara, cipó, guaraná, guri, jacarandá, jacaré, jaguar, jibóia, mingau, muriçoca, mutirão, pereba, perereca, peroba, peteca, pindaíba, pipoca, pirarucu, siri, siririca, tabaco, tabaréu, taboca, tipóia, urubu e xexéu.

Apesar da relação ser extensa, elas formam apenas uma diminuta parte da rica e variada linguagem que herdamos dos habitantes originais da terra. Na realidade, não é possível articular longas conversas em português brasileiro que não tenham palavras originárias do tupi ou de outras línguas indígenas.

Se não fosse o Marquês de Pombal, que em 1758 proibiu o uso do tupi e instituiu o português como língua oficial do Brasil, hoje estaríamos falando tupi ou no mínimo seríamos um país bilíngüe. Até então falava-se uma língua aprendida com os índios, o “nheengatu”, uma variação do tupi com sotaque português. Quando os lusitanos chegavam ao Brasil tinham que aprender o tupi para se fazerem entender pelos nativos.

Tomando-se como base a interpretação que se faz das estatísticas oficiais, se a intervenção do Marquês de Pombal não tivesse acontecido estaríamos vivendo atualmente uma situação surrealista: um país com língua, hábitos e costumes indígenas mas habitado apenas por brancos e negros, como querem nos fazer acreditar.

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